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Rodrigo Fonseca, crítico d’O GLOBO, fala sobre SUPER NADA

Segue a crítica, na íntegra, logo abaixo:

Como estou viajando em aula, para além do Além, fora da labuta regular em O GLOBO, não tive a chance de dar o devido destaque a um dos filmes brasileiros mais atraentes com que me deparei nos últimos meses: “Super Nada”, de Rubens Rewald. Mas quem ainda não teve a sorte de gastar umas duas horinhas com ele deve correr e valorizar esta produção, de teor crocante, vinda lá das nornes paulistanas.

Com CEP de SP, “Super Nada” fez a crítica do último Festival de Gramado, onde fez sua primeira exibição pública, acreditar na dobradinha entre a invenção e o humor. Um achado à parte – a presença do cantor Jair Rodrigues como ator – mostra que o cineasta Rubens Rewald teve a sobriedade de valorizar um ícone popular além-cinema como figura capaz de promover uma discussão sobre a cultura de massas no Brasil. Numa narrativa precisa, que em nenhum momento se deslumbra com a imagem quase folclórica de Jair, Rewald “orquestrou” um longa capaz de dialogar com a linhagem marginal de Sganzerla (“Abismu”) e Bressane (“O rei do baralho”) ao mesmo que traça, de modo realista e retilíneo, as agruras profissionais de um operário da arte: um ator de nome Guto, vivido por um dos melhores intérpretes do país na atualidade, Marat Descartes.

“Super Nada” é o nome de um programa de TV decadente, de uma emissora classe Z, no ar há anos, no qual um comediante metido a malandro, Zeca (Jair), requenta esquetes de tempos ancestrais, num formato à la “A praça é nossa” e seus congêneres. Mas mesmo ultrapassado, Zeca continua a ser um modelo para Guto, um ator que ganha a vida em pequenos bicos de atuação, engolindo fogo nos sinais ou exercitando seus movimentos corporais em exercícios de dramaturgia contemporânea. Com sua competência, Guto tem a chance de fazer um teste na TV, justo na trupe de “Super Nada”. E é nos bastidores das gravações e num porre de conhaque e outras vibes etílicas que ele desobre quem o verdadeiro Zeca é, numa relação especular fraturada entre ídolo e fã.

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Rewald narra o trauma do sonho quebrado como um dos núcleos de uma dramaturgia de roteiro mais ambiciosa, na qual a preocupação em acompanhar a peleja laboral de seu protagonista é sempre o foco. Esse registro das empreitadas de Guto aferra “Super Nada” a uma forma onde o realismo é edificado com inteligência, num processo de observação similar ao feito por Luís Sérgio Person em “São Paulo S/A” (1965) ou por Roberto Santos em “O grande momento” (1957). As vicissitudes de uma profissão que tem na fama seu farol vão sendo descortinadas sem glamour, num olhar distanciado, onde as complexidades psicológicas e existenciais de Guto conquistam a plateia por si, sem badulaques – o que não é difícil tendo Descartes em cena.

Com o auxílio de Hélcio “Alemão” Nagamine na fotografia, Rewald cria no mímimo uma sequência antológica, na qual Zeca solta o corpo ao som de “Deixa isso pra lá” (hit mais famoso de Jair) enquanto corteja a namorada de Guto, vivida por uma estonteante Clarissa Kiste (sublinhe beeeeeeeem a palavra estonteante para a mocinha). Capaz de fazer da economia de recursos um cinzel para esculpir suas atuações, Clarissa compõe um gestual digno de Helena Ignez em “A mulher de todos” (1969).

Agudo e envolvente, “Super Nada” chegou com a dura tarefa de mostrar que “O som ao redor” não vai ficar sozinho na defesa da inteligência nas nossas telas. Depois que saquei a programação do É Tudo Verdade e vi que Victor Lopes e seu “Serra Pelada” está lá, minha expectativa para o cinema brasilis deste ano subiu, já que o gajo de “Língua” (2004) nos deve este projeto sobre o garimpo maldito há milênios.

E la nave va, meu povo.

p.s.: Apesar de algumas asneiras que andam dizendo por aí, “Oz: Mágico e poderoso”, de Sam Raimi, é uma atração obrigatória para quem curte a sensação de ser supreendido (na forma e no conteúdo) ao ver um longa madeinusa.

(Rodrigo Fonseca)

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