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Super Nada em Belo Horizonte

 

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No próximo sábado, dia 23, haverá sessão de Super Nada em Belo Horizonte, no Cine centoequatro, seguida de bate-papo com o diretor Rubens Rewald. O filme entra em cartaz por lá na próxima sexta-feira. Não percam!

Entrevista – Jair Rodrigues (Zeca)

 

1) Quais foram as suas primeiras impressões quando o Rubens e a Rossana te convidaram para viver o personagem do Zeca em Super Nada?

O Rubens e a Rossana vieram aqui na minha casa para conversarmos sobre o personagem do Zeca. Eles deixaram o roteiro comigo, li e gostei. Na verdade, o Super Nada sou eu. Essa foi a terceira vez em que fui convidado para SN_Marcos_Camargo-5326fazer um filme. A primeira foi em 1969, em que fiz Jovens para frente. Acho que este foi o último filme em que o grande e inesquecível Oscarito participou. Mais tarde me convidaram para fazer parte de um filme que eu seria o pai do meu filho Jairzinho. E o terceiro foi oSuper Nada, em que o personagem parece ter sido feito para mim.

 

2) Em que medida a sua experiência dos palcos se aproxima com a que você viveu no set de filmagem?

Desde menino sempre gostei de frequentar as salas de cinema. Admirava os cantoresque se arriscavam a atuar, como o Frank Sinatra, bem como os diversos atores quecantavam nos filmes. Sempre fiquei encantado com aquilo, pois acho que o artista deve ser completo. Para mim, o set não foi diferente do palco. À medida em que fui me profissionalizando na música, fui me tornando um misto de ator com cantor.

 

3) Como foi a preparação para viver o Zeca ao lado de Cristiane Paoli- Quito?

A nossa aproximação foi uma relação de irmãos. Eu poderia até comparar o que foi a Quito na minha vida com a grande, inesquecível amiga Elis Regina. Nós conversávamos muito sobre o trabalho, quando eu dizia uma palavra, perguntava se minha inflexão estava boa, ela me dava uns toques, propondo novas maneira de fazer. Ela percebeu que eu queria chegar o mais próximo da perfeição.

 

4) Segundo os diretores a sua presença trouxe boas mudanças para o personagem do Zeca e consequentemente para o filme. O que há de Jair Rodrigues no seu papel?

Quando eu me deparei com o personagem tive a sessão que o Rubens e a Rossana já me conheciam há muito tempo. Eles me explicaram o projeto com tanto carinho, que eu não sabia se iria ter a mesma afeição pelo Zeca, mas ao ler o roteiro foi até mais emocionante. Cheguei a falar para eles que eu era um artista da música. Mas no palco nós temos que ser um artista de todas as áreas. Fiquei muito contente com a abertura e o diálogo que nós tínhamos desde o início. Poderia dizer que no personagem do Zeca há 80% de Jair Rodrigues.

 

5) Como foi contracenar com atores experientes como o Marat Descartes?

Quando vi que iria contracenar com o grande Marat Descartes tremi nas bases. A mesma coisa a acontece quando um cantor de início de carreira nos convida para participar de um show deles. Quando eles nos veem ficam travados. Eu só não travei, mas vi que estava no meio de feras. O Rubens me deu muita liberdade para que eu pudesse usar o meu próprio jeito de falar.

 

6) O que você achou da sua participação no filme?

Foi tão lindo participar do Super Nada. Esse filme foi uma reunião de bambas, não tinha banca, todo mundo se igualava, ninguém queria aparecer mais do que ninguém. Todo mundo estava muito disponível, repetíamos as cenas quantas vezes fosse necessário para que ela ficasse do jeitinho que os diretores tinham imaginado. Sempre que terminávamos de filmar uma cena todo mundo aplaudia, toda a equipe se abraçava, tinha um clima de comunhão no set.

 

7) Qual é a sua relação com o humor? Vocês gosta de arrancar risadas das pessoas?

Eu sempre penso muito no que vou dizer quando entro no palco para cantar. Eu gosto que as pessoas riam para mim e não riam de mim. Eu procuro agradar gregos etroianos, mas é difícil. Eu costumo dizer: Falem bem, mas falem de mim.

 

8) Quais são seus próximos projetos, vocês continua dando shows Brasil à fora?

Em breve eu estou indo para Las Vegas fazer shows e na volta vou me juntar ao meu filho Jairzinho para realizar um novo cd e dvd. Nós iremos gravar 30 músicas, algumas inéditas e outros clássicos que eu nunca gravei. Vocês poderão ver que o Jair eepode cantar qualquer tipo de música.

 

Entrevista – Marat Descartes (Guto)

1) Como surgiu o convite para fazer o Super Nada?

Eu e o Rubens já nos conhecíamos há um bom tempo. Ele é muito próximo da minha mestra da EAD/USP, a Cristiane Paoli-Quito. Num primeiro momento fiquei um pouco em crise com o personagem, achando que não tinha mais idade para fazer o papel. O Guto é um ator que ainda está patinando na carreira e na vida, e eu já estava num momento da minha carreira mais estruturado. Tinha um lugar estabelecido no teatro e no cinema. Mas depois de refletir, cheguei a conclusão de que não existe idade para viver esse tipo de situação. Vi no Guto quase que um arquétipo do ator nessa loucura da cidade grande.

2) Qual é a sua relação com a cidade de São Paulo, talvez o personagem que você mais contracena no filme?

Eu adoro São Paulo, nasci e cresci na Vila Madalena. Foi em SP que construí minha história, e é onde tenho minha carreira solidificada e reconhecida. Tenho uma ótima relação com a cidade, a loucura e a correria eu tiro de letra. Creio que para além da desventuras de um ator, o filme trata sobre como é sobreviver na cidade. Desde o início do processo o Rubens reiterava que o filme tratava ao mesmo tempo das dificuldades de inserção na carreira um ator, como de qualquer profissão. Vemos no filme uma cidade que engole os desejos e as perspectivas das pessoas. Mas ao mesmo tempo existe um olhar de admiração pela cidade, ela acolhe os personagens. A cidade pode ser cinzenta e melancólica, ao mesmo tempo é possível encontrar cor e beleza através da cultura urbana, refletida nos grafites.

3) O Rubens tem uma visão de que o cinema é sempre um processo colaborativo. Você sentia que tinha liberdade e interlocução com os outros membros da equipe?

Sim, ganhando experiência no cinema, a criação coletiva é um dos aspectos de que eu mais gosto. Criar quadro a quadro com toda a equipe é uma espécie de artesanato feito a várias mãos. E sendo o Rubens parceiro de longa data, tínhamos um diálogo muito aberto. Nós todos tínhamos liberdade para propor de um tudo, de como o ator se insere naquele plano, o que aquela cena significa dentro do roteiro, etc. Nesse sentido, poderia dizer que o Super Nada é um filme co-autoral.

4) O que você acha que dá para trazer do teatro para o cinema? Você tem alguma preferência de um meio em relação ao outro?

Acho uma coisa completamente diferente da outra, mas não tenho nenhuma preferência. As duas linguagens tem seus prós e contras. No cinema cada plano é uma oportunidade de você trazer novas informações, outro conteúdo, de reinventar seu personagem. Ao SN_Marcos_Camargo-8070passo que no teatro, uma vez que você ensaiou a peça toda, nosso personagem muda pouco ao longo da temporada. Comecei a fazer teatro com 14 anos, e nunca mais parei. Quando estava me formando na faculdade tive vontade de fazer cinema, mas achava muito estranho aquela câmera na minha frente e todas aquelas pessoas ao meu redor. No cinema você deve ter a atenção redobrada. Devemos ser capazes de nos distanciar de tudo aquilo que está em volta, e ao mesmo tempo estar completamente dentro da cena, do personagem… São facetas diferentes que me fazem gostar muito das duas linguagens.

5) Como foi dividir a cena com o Jair Rodrigues?

Foi delicioso, o Jair no set é diversão garantida. E nós tivemos essa importante preparação com a Quito. Ele se mostrou sempre muito aberto e disponível. O personagem do Jair apareceu como um contraponto do meu personagem e acho que isso fez muito bem para o filme.

6) Você chegou a assistir um corte intermediário do filme?

Eu insisti muito com Rubens para poder ver o filme no meio do processo de montagem. Ele acabou deixando e eu nunca me arrependi tanto… Eu estranhei muito aquele filme em corte seco, sem muito ritmo, sem música, sem marcação de luz. Achei meu personagem meio pesado, triste, melancólico. Fiz vários comentários para o Rubens, que agradeceu e me disse que aquilo que eu havia dito só reforçava a imagem dele sobre o filme, ou seja, totalmente o contrário do que eu havia dito. Mas quando o assisti em tela grande tive uma surpresa maravilhosa.

7) O que você achou do resultado final do filme?

Atuar no Super Nada teve um sabor muito especial. Primeiro porque contracenei com minha filha, Lygia, que acabou fazendo o papel de minha filha no filme, minha esposa também participou, e por fim, meu melhor amigo faz o papel do meu parceiro de Clown. Eu me senti em casa. Quando assisti ao filme em Gramado a surpresa foi muito grande. Era um filme completamente diferente daquele eu tinha visto na metade do processo, a montagem transformou o filme. E achei o máximo, adorei.

8) Neste ano você estará em 7 longas que entrarão em cartaz. Quais são seus próximos planos, alguns outros filmes em vista?

Nos últimos tempos fiquei um ano e meio trabalhando só com cinema, por isso terei tantos frutos a colher em 2013. Nos meus 20 de anos de carreira, nunca tinha ficado mais de um trimestre sem fazer teatro. No final do ano passado me convidaram para participar de uma peça que já está em cartaz, O Terraço, e eu topei. Além disso, aprovei duas peças num edital, um juvenil que irei adaptar e dirigir e, um monólogo que irei interpretar. Ou seja, nesse primeiro semestre resolvi matar a saudade do teatro.

Entrevista – Clarissa Kiste (Lívia)

1) Como surgiu o convite para    fazer o Super Nada?

O Rubens foi a primeira pessoa que me contratou profissionalmente, e foi para fazer uma peça de teatro. Eu tinha 16 anos e estava me formando na Macunaíma, minha primeira escola de teatro. Fizemos juntos o Narraador [1996], uma das primeiras peça que o Rubens escreveu. Tenho até hoje guardado um xerox da folha de cheque desse meu primeiro salário. Filmando o Trabalhar Cansa [Juliana Rojas e Marco Dutra, 2011], o Marat comentou que o Rubens me procuraria para conversar sobre seu próximo projeto de filme. Em seguida ele me convidou para fazer o teste do Super Nada e eu acabei sendo confirmada para fazer o papel da Lívia. Nós temos um carinho muito grande um com o outro, nos conhecemos quando éramos muito jovens, e foi muito bonito a vida proporcionar nosso reencontro.

2) O que precisa te chamar atenção para você topar um trabalho?

Já tiveram momentos em que eu neguei alguns trabalhos, mas sendo bem sincera na nossa carreira não temos tanta escolha, pois ainda não há tanta oferta. Quando comecei minha carreira de atriz, o cinema engatinhava, faço teatro desde os 14 anos. Eu gosto muito do filme anterior do Rubens e da Rô, Corpo, e ao ler o roteiro do Super Nada, achei excelente, adorei a personagem. Gosto desse lado do filme que fala da batalha da carreira do ator, apesar da minha história pessoal não ter acontecido exatamente assim, todos nós conhecemos colegas como os personagens do Guto e da Lívia. Acho que o principal para que eu possa topar um projeto ou não, passa muito por com quem eu irei trabalhar. Quando você está com pessoas em que você confia e admira você topa e segue junto nessa trilha.

3) Você transita entre televisão, teatro e cinema. O que leva de experiência de um meio para o outro? E o que há em comum entre atuar no palco, na TV e num set?

Fiz um pouco de tudo, publicidade, dublagem, cinema, série de tv, teatro, e eu tudo é o mesmo métier. Eu lanço mão dos mesmos artifícios para trabalhar no cinema, na tv e no teatro. Como comecei trabalhando no teatro, e foi o que eu mais fiz, posso dizer que é onde eu me sinto mais segura. No teatro, o ator tem o domínio total do que está fazendo, estar foto_Marcos_Camargo-8135em cena no teatro é muito completo e requer muito do ator. No cinema já é diferente, temos que ser muito mais receptivos do que ativos. Eu brinco que no cinema, inserida no cenário, na textura, na cor, no figurino, você quase que não precisa fazer mais nada, só o que está escrito no papel. A imagem é muito forte no cinema. No teatro você tem que estar presente 360 graus, criar a forma, a velocidade, o clima… no cinema quem cria tudo isso é todo aparato que está em volta, no caso é o diretor que rege. Eu concordo com aquele máxima: a tv é uma arte do autor, o cinema é uma arte do diretor e o teatro é uma arte do ator. Em cada meio há quem comanda.

4) Como foi feita a preparação para você viver a personagem?

Nós ficamos 2 meses fazendo aulas de preparação corporal, e isso nos dá uma sensação de estar fazendo teatro, de estar no lugar independente da Lívia, independente da minha fala. A sua personagem começa a ganhar corpo, jeito, olhar. Esse contato focado com o personagem faz com que você esteja segura no momento das filmagens, esteja em casa no momento da ação. Essa preparação foi muito prazerosa e importante para estabelecermos uma mesma comunicação, uma mesma língua.

5) A personagem da Lívia é lacunar, que aparece e desaparece ao longo do filme, isso te colocou alguma dificuldade? Havia alguma dificuldade nessa fragmentação das suas cenas?

Foi mais difícil encontrar o arco da personagem. Na verdade, a Lívia está lá como um chão para o personagem do Guto. Através da relação dele com ela, dos comentários dela, das atitudes dela, nós estendemos melhor o Guto, as aspirações dele, seus fracassos, sua falta de iniciativa. Acho que a função da Lívia é clarificar a compreensão do aspecto pessoal do Guto. A cena da dança entre o Zeca e Lívia marca uma virada e daí em diante eu entendo o fato dela sumir, pois da metade do filme para frente o espectador já tem informações suficientes sobre o Guto.

6) Como foi contracenar com o Marat Descartes e o Jair Rodrigues?

Desde o início o Rubens sabia bem o que queria da minha personagem. Com o Jair tivemos que ter um jogo de cintura, o que é normal pelo fato dele não ter essa prática como ator. É uma figura única, foi uma delícia trabalhar com o Jair. Ele tem uma energia impressionante.

7) Como é trabalhar com dois diretores?

Eu dei sorte, o Rubens e a Rossana estão em uníssono o tempo todo. Ambos são muito abertos. O fato de sermos atores e do filme tratar da nossa realidade, fazia com que eles nos ouvissem muito, dávamos nossas opiniões do que era verossímil ou não. No set, o Rubens é mais expansivo e a Rossana mais observadora. Ao meu ver, quanto mais atenção e quanto mais opinião melhor, pois o momento da filmagem é o momento da troca. Tinha também uma ótima relação com o fotógrafo, o Alemão. Para o ator é muito importante a conexão com essa pessoa que está com olho na câmera. Quando entro no set estabeleço imediatamente uma relação de olhar com o fotógrafo.

8) Quais são seus próximos projetos?

Quero cada vez mais fazer cinema, mas não há tanta abertura e tantos projetos para nos absorver. Este ano fiz com a Monique Gardenberg, que também é diretora de cinema, um espetáculo baseado nos contos do Haruki Murakami, chamado O desaparecimento do elefante. Em breve ele irá estrear aqui no SESC Pinheiros.

Entrevista – Rubens Rewald, diretor e roteirista

1) Qual foi a gênese do roteiro?

Como trabalho com teatro há muito tempo e, portanto, tenho uma familiaridade com o percurso dos atores, o roteiro parte de algo que conheço de perto. A dificuldade de se firmar profissionalmente na grande cidade estava na origem do projeto. O primeiro nome do filme era “Teste”, o que remete a algo do cotidiano não só dos atores, como de qualquer profissional lutando por um espaço. Estamos a todo momento numa espécie de competição, onde devemos provar que somos melhores uns dos outros, o que nos leva a se identificar com o Guto [Marat Descartes], protagonista do filme, que passa por uma via crucis profissional e emocional. Aliás esse cruzamento entre a vida profissional e a pessoal é a linha condutora do filme. O que eu busquei no roteiro do Super Nada foi desconstruir algo que todo bom drama deve ter: a “unidade de ação”. Unidade de ação é aquela questão central em torno da qual todos os elementos do drama estão subordinados. Ao meu ver, um herói contemporâneo não tem apenas uma linha de ação, ele se envolve em diversas dinâmicas, é atravessado a todo momento por diversos problemas, uns colidem com os outros, e essa instabilidade dramática se reflete na construção da jornada de Guto.

2) Qual foi o aporte dos colaboradores citados nos créditos finais (Jean-Claude Bernardet, Tales Ab’Saber, Vladimir Safatle, etc…)?

Faço parte de um coletivo chamado Nudrama, um grupo de pessoas ligadas à ECA/USP e profissionais da área, que durante muitos anos teve uma intensa atuação fazendo script doctor [dinâmica de leitura de roteiro]. Acredito piamente neste processo de discussão do roteiro em grupo, por achar que a elaboração de um filme é vocacionalmente coletiva. Comecei a escrever o roteiro de Super Nada depois de filmar o Corpo [2007]. Ao longo do processo de escrita, que durou quatro anos, tentei procurar pessoas diferentes que pudessem opinar em assuntos que eu gostaria de adensar. Isso foi muito importante para o resultado final, daí a referência a estes leitores nos créditos.

3) Da sua vasta experiência no teatro, o que você trouxe para o cinema?

Minha relação com o teatro é profunda. Tenho mais de dez peças encenadas e estava indo bem quando ganhei o edital do filme Mutante [2002]. Me formei em cinema no anos 1990 na ECA/USP, exatamente no momento do plano Collor, ou seja, à época da terra devastada. Eu me interessava por essa dimensão do processo colaborativo nas artes cênicas, e foi isso que tentei transpor para o cinema. Respeitando uma certa hierarquia, busco sempre um espírito colaborativo para toda a equipe do filme, desde os atores até o montador, passando pelo fotógrafo, pelo preparador de elenco, pelo diretor de arte etc.

4) Depois do curta Mutante (2002) e do longa Corpo (2007), Super Nada (2012) é seu terceiro filme desenvolvido com Rossana Foglia. Como foi a realização a quatro mãos?

Decidimos tudo conjuntamente. Ao contrário do que se pode pensar, o momento mais difícil não é o da filmagem, mas o da pré-produção. Decidir a decupagem é um processo muito lento, pois são duas maneiras de ver que devem entrar num acordo. Já nas filmagens o processo é tranquilo, pois partimos de decisões consensuais. Na filmagem são dois olhares, duas atenções e um filtro mais rígido. Se uma cena ficou boa para um, mas não para o outro, fazemos de novo. Tenho mais facilidade para trabalhar com os atores, a Rossana para trabalhar com a câmera, temos uma dinâmica de trabalho muito boa.

5) Uma certa impressão de decadência ronda o filme do início ao fim, da degradação da cidade até o programa de TV admirado por Guto. Essa camada de leitura estava prevista desde o início?

A decadência é um sub-texto do filme. Super Nada dialoga com a cultura pop, através da televisão, da presença do Jair Rodrigues, do flerte com o cinema marginal, mas traz um pop em declínio. Nos anos 1960, uma alegria acompanhava a explosão pop, mas hoje o pop é melancólico. Perdemos a ingenuidade daquele momento. O filme dialoga com a decadência dessa cultura, mas também das cidades e das relações. Ela se exprime pela degradação dos espaços, pelo tropeço dos personagens. Tudo parece desarranjado.

6) A cidade é um personagem de Super Nada. Guto contracena muitas vezes com a sua paisagem, vez por outra surgem duetos dos atores com os grafites. Como foi pensada a presença de São Paulo no filme?

Ela estava prevista desde o início. De acordo com o estado de espírito dos personagens, vemos a cidade de maneira diferente. Os humores da cidade influenciam os humores do personagem e vice-e-versa. A cidade pode ser ao mesmo tempo agressiva e acolhedora. Guto não foge dela, com a qual se relaciona o tempo todo. Convivendo com a desolação, há um movimento constante. É como se ele fosse um fractal da cidade, expressando essa dicotomia entre imobilidade e mobilidade. O que dá cor, bagunça e vida à cidade são os grafites e as pessoas. Fizemos uma pesquisa extensa sobre o grafite, porque ele marca São Paulo e orienta nosso olhar. Os grafites pontuam o filme como sinais para o Guto.

7) Uma das grandes qualidades do filme é a construção dos personagens, que fogem do estereótipo e da caricatura, mas parecem evocar figuras circenses. Guto encarna, de certo modo, um equilibrista, cuja rede de segurança fica a cargo de Lívia. Zeca, por sua vez, tem algo de um palhaço – ao qual nos afeiçoamos. Como você transmitiu para os atores o desenho de seus respectivos personagens?

O Marat [Guto], o Jair [Zeca] e a Clarissa [Lívia] carregam de certo modo o filme. A metáfora que eu usava bastante para o personagem do Guto era a daquele malabarista de pratos do circo chinês. Enquanto eles equilibram quase todos, deixando um ou dois cairem no chão, Guto conseguia equilibrar apenas um ou dois pratos, deixando todo o restante cair. Ele é um “desequilibrista” de pratos. O contexto é decadente e o Guto é vivo, ele se descola de seu entorno. Ele está aquém e além da sua realidade. O personagem da Clarissa – Lívia – é um pouco lacunar, o que pode ser passível de crítica, mas é assim que a figura dela aparece na vida de Guto, da qual o filme emana. Já o personagem do Zeca traz um ar novo ao pessimismo que paira o cotidiano de Guto. Zeca é ambíguo, a tristeza e a alegria, a amargura e a doçura coexistem no personagem. Enfim, queria que todas essas relações fossem o mais fiéis possível às sensações do Guto.

8) O personagem de Guto responde a uma imobilidade profissional com uma extrema mobilidade corporal. Como se a dramaturgia e o roteiro caminhassem para uma direção e a direção de ator para outra. Essa decisão foi deliberada?

Quando se fala em dramaturgia nos EUA, ela envolve duas coisas interligadas: a escrita dramática e a construção do ator. Ao escrever um roteiro, já visualizo o pathos do ator. Como tenho essa relação íntima com o teatro, entendo a linguagem do ator. Isso já faz parte da minha dinâmica de trabalho e de criação. Meu roteiro já está carregado da fisicalidade e da oralidade do ator. Mas é claro que há um caminho entre a escrita do roteiro, o ensaio, a filmagem e a montagem. Geralmente as cenas do roteiro tem uma dupla função: elas devem ser boas por si só dentro da estrutura geral da trama, mas o ator tem que se sentir estimulado. Muitas vezes existem caminhos que estão incompletos no roteiro, deixo algumas lacunas para que o ator possa preenchê-las.

9) Você já comentou sobre a mudança que a presença do Jair Rodrigues trouxe para o personagem do Zeca. Como ele era antes e depois?

O personagem do Zeca era muito mais sombrio, deprimido e pessimista. Era mais pesado, e deixava o filme mais pesado. Essa personalidade afastava muito os atores… Teve um momento em que comecei a querer confiar esse personagem a um ator não profissional, pois ele pedia algo diferente, que quebrasse as expectativas do espectador. Pensei então no Jair Rodrigues, um ídolo popular, como uma espécie de Grande Otelo, um pouco deslocado, anárquico, engraçado, tendendo a causar um curto-circuito interessante na percepção do espectador com sua energia e luz fulgurantes. Para nossa surpresa, o Jair recebeu o projeto de braços abertos. Nós o deixamos livre para improvisar e adaptar as falas do Zeca. Ele tornou o personagem mais leve e trouxe uma carga de humor que equilibrou o filme.

10) Vocês ensaiam muito antes das filmagens?

Ensaiamos de um a dois meses antes da filmagem, de duas a três vezes por semana. Concebo o set como um lugar de criação, mas também como o ápice de tudo aquilo que foi trabalhado durante os ensaios. Ao contrário do que se pensa, os ensaios não servem apenas para fechar a cena, mas também para alimentar os atores. O ensaio é o espaço do ator, onde ele tem muita liberdade para descobrir novos caminhos, novas possibilidades, novas gestuais. As vezes o ator é o melhor termômetro para saber se aquele caminho dramático está correto ou não. Reescrevo muito o roteiro a partir dos ensaios.

11) A fotografia adere aos humores dos personagens, ora mais cinza, ora mais solar. Como foi o trabalho com o Hélcio “Alemão” Nagamine?

O “Alemão” foi nosso colega de ECA. A comunicação sempre foi muito fácil e direta. Ele compreendeu totalmente o sentido, a linguagem e o movimento do filme. A ideia da decupagem e do desenho de luz era que tudo fosse muito seco, nada pomposo, quase descolorido. As cores do filme deveriam emanar dos humores do Guto, como se tudo fosse uma coisa só: o personagem, a cidade e o filme. Outra escolha importante foi a nossa opção pelo Super 16mm, que dá uma imagem não tão profunda, nem tão densa, nem tão vibrante quanto o 35mm, mas dá uma densidade de película. Achamos que o Super 16mm dialogaria muito bem com a dramaturgia do filme.

12) Como vocês indicaram ao montador o que queriam?

Geralmente eu e Rossana ficamos em cima do montador, não lhe damos vida fácil. Mas na primeira semana é sempre bom deixá-lo livre, para que ele possa ganhar intimidade com o material. Eu sempre digo que a montagem é o último tratamento do roteiro. Ela reconstrói a dramaturgia pela manipulação do tempo e do espaço, assim como do corpo do ator. Através da montagem você redefine a interpretação do ator. Chegamos num primeiro corte de 2h40 com muitas histórias, nas quais Guto fazia mil testes, se envolvia em mil coisas, parecia ainda mais desfocado… O montador teve um trabalho muito importante nesse processo de redução, privilegiando uma fluência narrativa e selecionando os momentos essenciais que deveriam figurar na versão final.

13) A banda sonora do filme é muito inventiva, ora alternando, ora superpondo os sons da cidade e a trilha sonora. Como foi o trabalho de desenho de som?

Buscamos um diálogo entre os sons da cidade e os outros sons. É praticamente imperceptível, mas existem duas trilhas sonoras completamente diferentes, compostas por uma banda brasileira e outra banda mexicana. E uma não tinha acesso ao que a outra estava compondo. Há vários trechos no filme justapondo os sons da cidade e os das trilhas brasileira e mexicana. A ideia era criar uma dissonância, uma certa poluição sonora produzindo novos sentidos para as cenas.

14) Como o público dos festivais tem recebido o filme?

A sensação que eu tive com as exibições do filme é de muita afetividade do público. As pessoas gostam de ver, tem uma relação de adesão, por isso que estamos otimistas com o lançamento. O humor facilita a comunicação, e somos muito devedores à presença do Jair Rodrigues. Tive a sorte de trabalhar com uma equipe harmoniosa e com excelentes atores, acho que isso está refletido no resultado final.