Novidades

Impressões da dramaturga e poeta Claudia Vasconcellos após ver Super Nada

“Ontem fui assistir ao filme. Dormi pensando nele, ele entrou no meu sonho e de manhã tive que escrever algo sobre, para entender a experiência. Então, segue abaixo um breve texto impressionista: o tom conciliatório do final de Supernada surpreenda.
Afinal há dois momentos de grande violência, que ainda estão presentes para o espectador quando Zeca arremata a história com uma lucidez que não é a do cognac. Dois momentos: os socos num velho com violência desproporcinal à situação de ciúme; a mãe que levanta a faca para o filho.
É provável que a violência súbita e a súbita sabedoria do Zeca ao final do filme, apontem para o contraditório dentro de nós, para uma compreensão do homem, nem besta nem anjo, ou um pouco besta e um pouco anjo. Porque assim como há dois momentos violentos, há dois de lirismo e alegria, mesmo que interrompidos bruscamente: mãe e filho dançando com as mãos; a jovem dançando com o velho.
Mas não só.
A conciliação final não vem em tom menor ou maior, é uma acorde dissonante. Fica suspenso o futuro do ator que não é mais jovem. Um futuro que já devia ter acontecido…
Acho que aí está a chave para o final desconcertante.
A São Paulo de Supernada não é aquela glamourosa de Walter Hugo Khouri nem a suburbana de Reichenbach. É a São Paulo classe média, cuja violência maior é a indiferença. E assim a cidade, espelho subjetivo de Guto, aparece também ‘conciliada’, redimida num equilíbrio perverso: não há violência, sequestros, tiros na madrugada, mas sim a impossibilidade de relações humanas fortes: ajuda-se o outro, mas à distância; ama-se, mas sem paixão ou comprometimento; droga-se não para o insight criativo, mas para o simples embotamento.
Supernada assim vai tecendo fios de nada. Ou desfiando fios de nada de um novelo inquietante: a vida de um ator em nossa época, em nossa cidade.
A arte, que porta ainda a aura de conhecimento e instrumento de transformação, em verdade, desvitalizou-se. Os palhaços Guto e Zeca são sem graça e reféns passivos de um sistema que os ultrapassa, mas dentro do qual estão conformados.
Retratar assim o artista em nosso tempo é incluir-se nesta foto. Incluir-nos nela. Neste flagrante de inércia e acomodação. É uma tentativa de choque. Porque é o choque que nos pode tirar do conformismo inconsciente.
Supernada tem a qualidade de fazer pensar. Pelo estranhamento que opera.
Quando foi que abdicamos de nossa inteligência, de nossa combatividade, de nossos ideais?, nos pergunta o filme da tela.
As pixações em letras anônimas que pontuam as imagens assinam muros com um protesto possível. Mas são inscrições de uma outra São Paulo, que não esta, alvo deste superlativo conformismo que vai nos nadificando violenta e suavemente.”

(Claudia Vasconcellos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Tags HTML estão proibidas.