Novidades

Entrevista – Rubens Rewald, diretor e roteirista

1) Qual foi a gênese do roteiro?

Como trabalho com teatro há muito tempo e, portanto, tenho uma familiaridade com o percurso dos atores, o roteiro parte de algo que conheço de perto. A dificuldade de se firmar profissionalmente na grande cidade estava na origem do projeto. O primeiro nome do filme era “Teste”, o que remete a algo do cotidiano não só dos atores, como de qualquer profissional lutando por um espaço. Estamos a todo momento numa espécie de competição, onde devemos provar que somos melhores uns dos outros, o que nos leva a se identificar com o Guto [Marat Descartes], protagonista do filme, que passa por uma via crucis profissional e emocional. Aliás esse cruzamento entre a vida profissional e a pessoal é a linha condutora do filme. O que eu busquei no roteiro do Super Nada foi desconstruir algo que todo bom drama deve ter: a “unidade de ação”. Unidade de ação é aquela questão central em torno da qual todos os elementos do drama estão subordinados. Ao meu ver, um herói contemporâneo não tem apenas uma linha de ação, ele se envolve em diversas dinâmicas, é atravessado a todo momento por diversos problemas, uns colidem com os outros, e essa instabilidade dramática se reflete na construção da jornada de Guto.

2) Qual foi o aporte dos colaboradores citados nos créditos finais (Jean-Claude Bernardet, Tales Ab’Saber, Vladimir Safatle, etc…)?

Faço parte de um coletivo chamado Nudrama, um grupo de pessoas ligadas à ECA/USP e profissionais da área, que durante muitos anos teve uma intensa atuação fazendo script doctor [dinâmica de leitura de roteiro]. Acredito piamente neste processo de discussão do roteiro em grupo, por achar que a elaboração de um filme é vocacionalmente coletiva. Comecei a escrever o roteiro de Super Nada depois de filmar o Corpo [2007]. Ao longo do processo de escrita, que durou quatro anos, tentei procurar pessoas diferentes que pudessem opinar em assuntos que eu gostaria de adensar. Isso foi muito importante para o resultado final, daí a referência a estes leitores nos créditos.

3) Da sua vasta experiência no teatro, o que você trouxe para o cinema?

Minha relação com o teatro é profunda. Tenho mais de dez peças encenadas e estava indo bem quando ganhei o edital do filme Mutante [2002]. Me formei em cinema no anos 1990 na ECA/USP, exatamente no momento do plano Collor, ou seja, à época da terra devastada. Eu me interessava por essa dimensão do processo colaborativo nas artes cênicas, e foi isso que tentei transpor para o cinema. Respeitando uma certa hierarquia, busco sempre um espírito colaborativo para toda a equipe do filme, desde os atores até o montador, passando pelo fotógrafo, pelo preparador de elenco, pelo diretor de arte etc.

4) Depois do curta Mutante (2002) e do longa Corpo (2007), Super Nada (2012) é seu terceiro filme desenvolvido com Rossana Foglia. Como foi a realização a quatro mãos?

Decidimos tudo conjuntamente. Ao contrário do que se pode pensar, o momento mais difícil não é o da filmagem, mas o da pré-produção. Decidir a decupagem é um processo muito lento, pois são duas maneiras de ver que devem entrar num acordo. Já nas filmagens o processo é tranquilo, pois partimos de decisões consensuais. Na filmagem são dois olhares, duas atenções e um filtro mais rígido. Se uma cena ficou boa para um, mas não para o outro, fazemos de novo. Tenho mais facilidade para trabalhar com os atores, a Rossana para trabalhar com a câmera, temos uma dinâmica de trabalho muito boa.

5) Uma certa impressão de decadência ronda o filme do início ao fim, da degradação da cidade até o programa de TV admirado por Guto. Essa camada de leitura estava prevista desde o início?

A decadência é um sub-texto do filme. Super Nada dialoga com a cultura pop, através da televisão, da presença do Jair Rodrigues, do flerte com o cinema marginal, mas traz um pop em declínio. Nos anos 1960, uma alegria acompanhava a explosão pop, mas hoje o pop é melancólico. Perdemos a ingenuidade daquele momento. O filme dialoga com a decadência dessa cultura, mas também das cidades e das relações. Ela se exprime pela degradação dos espaços, pelo tropeço dos personagens. Tudo parece desarranjado.

6) A cidade é um personagem de Super Nada. Guto contracena muitas vezes com a sua paisagem, vez por outra surgem duetos dos atores com os grafites. Como foi pensada a presença de São Paulo no filme?

Ela estava prevista desde o início. De acordo com o estado de espírito dos personagens, vemos a cidade de maneira diferente. Os humores da cidade influenciam os humores do personagem e vice-e-versa. A cidade pode ser ao mesmo tempo agressiva e acolhedora. Guto não foge dela, com a qual se relaciona o tempo todo. Convivendo com a desolação, há um movimento constante. É como se ele fosse um fractal da cidade, expressando essa dicotomia entre imobilidade e mobilidade. O que dá cor, bagunça e vida à cidade são os grafites e as pessoas. Fizemos uma pesquisa extensa sobre o grafite, porque ele marca São Paulo e orienta nosso olhar. Os grafites pontuam o filme como sinais para o Guto.

7) Uma das grandes qualidades do filme é a construção dos personagens, que fogem do estereótipo e da caricatura, mas parecem evocar figuras circenses. Guto encarna, de certo modo, um equilibrista, cuja rede de segurança fica a cargo de Lívia. Zeca, por sua vez, tem algo de um palhaço – ao qual nos afeiçoamos. Como você transmitiu para os atores o desenho de seus respectivos personagens?

O Marat [Guto], o Jair [Zeca] e a Clarissa [Lívia] carregam de certo modo o filme. A metáfora que eu usava bastante para o personagem do Guto era a daquele malabarista de pratos do circo chinês. Enquanto eles equilibram quase todos, deixando um ou dois cairem no chão, Guto conseguia equilibrar apenas um ou dois pratos, deixando todo o restante cair. Ele é um “desequilibrista” de pratos. O contexto é decadente e o Guto é vivo, ele se descola de seu entorno. Ele está aquém e além da sua realidade. O personagem da Clarissa – Lívia – é um pouco lacunar, o que pode ser passível de crítica, mas é assim que a figura dela aparece na vida de Guto, da qual o filme emana. Já o personagem do Zeca traz um ar novo ao pessimismo que paira o cotidiano de Guto. Zeca é ambíguo, a tristeza e a alegria, a amargura e a doçura coexistem no personagem. Enfim, queria que todas essas relações fossem o mais fiéis possível às sensações do Guto.

8) O personagem de Guto responde a uma imobilidade profissional com uma extrema mobilidade corporal. Como se a dramaturgia e o roteiro caminhassem para uma direção e a direção de ator para outra. Essa decisão foi deliberada?

Quando se fala em dramaturgia nos EUA, ela envolve duas coisas interligadas: a escrita dramática e a construção do ator. Ao escrever um roteiro, já visualizo o pathos do ator. Como tenho essa relação íntima com o teatro, entendo a linguagem do ator. Isso já faz parte da minha dinâmica de trabalho e de criação. Meu roteiro já está carregado da fisicalidade e da oralidade do ator. Mas é claro que há um caminho entre a escrita do roteiro, o ensaio, a filmagem e a montagem. Geralmente as cenas do roteiro tem uma dupla função: elas devem ser boas por si só dentro da estrutura geral da trama, mas o ator tem que se sentir estimulado. Muitas vezes existem caminhos que estão incompletos no roteiro, deixo algumas lacunas para que o ator possa preenchê-las.

9) Você já comentou sobre a mudança que a presença do Jair Rodrigues trouxe para o personagem do Zeca. Como ele era antes e depois?

O personagem do Zeca era muito mais sombrio, deprimido e pessimista. Era mais pesado, e deixava o filme mais pesado. Essa personalidade afastava muito os atores… Teve um momento em que comecei a querer confiar esse personagem a um ator não profissional, pois ele pedia algo diferente, que quebrasse as expectativas do espectador. Pensei então no Jair Rodrigues, um ídolo popular, como uma espécie de Grande Otelo, um pouco deslocado, anárquico, engraçado, tendendo a causar um curto-circuito interessante na percepção do espectador com sua energia e luz fulgurantes. Para nossa surpresa, o Jair recebeu o projeto de braços abertos. Nós o deixamos livre para improvisar e adaptar as falas do Zeca. Ele tornou o personagem mais leve e trouxe uma carga de humor que equilibrou o filme.

10) Vocês ensaiam muito antes das filmagens?

Ensaiamos de um a dois meses antes da filmagem, de duas a três vezes por semana. Concebo o set como um lugar de criação, mas também como o ápice de tudo aquilo que foi trabalhado durante os ensaios. Ao contrário do que se pensa, os ensaios não servem apenas para fechar a cena, mas também para alimentar os atores. O ensaio é o espaço do ator, onde ele tem muita liberdade para descobrir novos caminhos, novas possibilidades, novas gestuais. As vezes o ator é o melhor termômetro para saber se aquele caminho dramático está correto ou não. Reescrevo muito o roteiro a partir dos ensaios.

11) A fotografia adere aos humores dos personagens, ora mais cinza, ora mais solar. Como foi o trabalho com o Hélcio “Alemão” Nagamine?

O “Alemão” foi nosso colega de ECA. A comunicação sempre foi muito fácil e direta. Ele compreendeu totalmente o sentido, a linguagem e o movimento do filme. A ideia da decupagem e do desenho de luz era que tudo fosse muito seco, nada pomposo, quase descolorido. As cores do filme deveriam emanar dos humores do Guto, como se tudo fosse uma coisa só: o personagem, a cidade e o filme. Outra escolha importante foi a nossa opção pelo Super 16mm, que dá uma imagem não tão profunda, nem tão densa, nem tão vibrante quanto o 35mm, mas dá uma densidade de película. Achamos que o Super 16mm dialogaria muito bem com a dramaturgia do filme.

12) Como vocês indicaram ao montador o que queriam?

Geralmente eu e Rossana ficamos em cima do montador, não lhe damos vida fácil. Mas na primeira semana é sempre bom deixá-lo livre, para que ele possa ganhar intimidade com o material. Eu sempre digo que a montagem é o último tratamento do roteiro. Ela reconstrói a dramaturgia pela manipulação do tempo e do espaço, assim como do corpo do ator. Através da montagem você redefine a interpretação do ator. Chegamos num primeiro corte de 2h40 com muitas histórias, nas quais Guto fazia mil testes, se envolvia em mil coisas, parecia ainda mais desfocado… O montador teve um trabalho muito importante nesse processo de redução, privilegiando uma fluência narrativa e selecionando os momentos essenciais que deveriam figurar na versão final.

13) A banda sonora do filme é muito inventiva, ora alternando, ora superpondo os sons da cidade e a trilha sonora. Como foi o trabalho de desenho de som?

Buscamos um diálogo entre os sons da cidade e os outros sons. É praticamente imperceptível, mas existem duas trilhas sonoras completamente diferentes, compostas por uma banda brasileira e outra banda mexicana. E uma não tinha acesso ao que a outra estava compondo. Há vários trechos no filme justapondo os sons da cidade e os das trilhas brasileira e mexicana. A ideia era criar uma dissonância, uma certa poluição sonora produzindo novos sentidos para as cenas.

14) Como o público dos festivais tem recebido o filme?

A sensação que eu tive com as exibições do filme é de muita afetividade do público. As pessoas gostam de ver, tem uma relação de adesão, por isso que estamos otimistas com o lançamento. O humor facilita a comunicação, e somos muito devedores à presença do Jair Rodrigues. Tive a sorte de trabalhar com uma equipe harmoniosa e com excelentes atores, acho que isso está refletido no resultado final.

3 comentários em “Entrevista – Rubens Rewald, diretor e roteirista

  1. Lilian Aquino em disse:

    Muito bom! Parabéns, querido.

  2. walter tabax em disse:

    um passeio entre surrealismo e realismo. Confunde, chateia e diverte. Nos identificamos tanto com o personagem que quer ser herói qto com o herói que quer ser personagem, ou nada ao mesmo tempo. É sempre assim. Os heróis (mesmo falsos heróis) que amamos hoje, destruimos amanhã, pq precisamos sobreviver daquilo que não temos e achamos que o outro tem. Parabéns Ro e Ru.

  3. walter tabax em disse:

    … e depois de destruído, percebemos a cagada que fizemos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Tags HTML estão proibidas.