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Entrevista – Rossana Foglia, co-diretora

 

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1) Após dois filmes realizados em parceria, como ocorreu a gênese desse novo projeto? A elaboração do roteiro do Super Nada foi diferente da dos outros que o precederam?

Diferentemente dos nossos trabalhos anteriores, o Super Nada é um projeto do Rubens. Ele o desenvolveu individualmente, e chegou a uma primeira versão do roteiro. Fiz algumas leituras já perto do momento das filmagens. Em seguida pensamos a realização do filme juntos. Minha contribuição foi principalmente na direção e não na construção do roteiro ou do argumento.

 

2) Antes de ser diretora de cinema, você trabalhou em algumas peças de teatro. Como se deu seu itinerário no teatro?

Eu e Rubens nos conhecemos na ECA/USP, e na época em que estávamos nos formando era muito difícil filmar. O Rubens tinha alguns projetos no teatro no final dos anos 90 e foi quando me envolvi. Como também fiz FAU/USP [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo], na primeira peça que o Rubens montou, me dediquei intensamente ao cenário. Fizemos três peças juntos, sendo que na última, O Gabinete de Joana, me aventurei na direção. Mas ao contrário dele, não continuei a trabalhar com teatro depois desses primeiros projetos.

 

3) O Super Nada é o segundo longa que vocês dirigem a quatro mãos. Como é que funciona a dinâmica de trabalho entre vocês?

No nosso caso ela tem a ver com o tempo e com o crescimento pessoal de cada um. Quando trabalhamos em teatro, estávamos aprendendo, e estas co-produções/co-direções tinham um sentido. No momento em que fizemos o curta, Mutante…, estávamos mais maduros, pois tínhamos três peças de teatro na nossa bagagem. Apesar de ter trabalhado com teatro, sempre quis me voltar para o cinema. Eu e Rubens crescemos profissionalmente juntos e creio que o Super Nada funciona como uma transição. O filme marca o momento em que provavelmente daremos início a nossas carreiras solo. Minha participação nesse projeto é de certa forma residual, fui para o set do Super Nada como uma co-diretora. As filmagens são um processo controlado, não faz sentido trabalhar em dupla para chegar no momento da filmagem e ter crises. Temos que ser objetivos e evitar as situações de instabilidade. Claro que podemos ter situações que fujam completamente do controle nas filmagens, e é bom que tenhamos. Mas precisamos saber reagir a elas.

 

4) Como foi essa pesquisa das locações? A decisão de quais seriam retratadas no filme era tomada em conjunto?

Este foi um período árduo, em que fizemos uma longa pesquisa. Foi quando começamos a atentar para os grafites. Por exemplo, eu sabia da existência dos Gêmeos, mas não sabia que aquele grande painel na Radial-Leste na altura da Liberdade era de autoria deles. Pouco a pouco começamos a prestar mais atenção e a estudar esse tipo de beleza da cidade. Entramos em contato com grafiteiros que fizeram coisas específicas só para o filme, mas há outras imagens que já faziam parte da paisagem urbana.

 

5) Parece que tudo no filme, inclusive a estética, deveria emanar do personagem do Guto. Você que trabalhou em sintonia com o fotógrafo, tinha isso sempre em mente?

Nós sempre fazemos um estudo de decupagem na locação e um planejamento dos quadros nos espaço em que iremos filmar. Para mim a questão do espaço no cinema é muito importante. Estudar como você localiza os personagens no mundo, nos interiores, ou como podemos explorar melhor a cena é imprescindível. Sou mais obsessiva com isso. Para mim é essencial estudar as locações, inclusive para dar novas ideias aos atores no momento das filmagens. Nós conversamos sobre todos os planos com o fotógrafo antes de ir para as filmagens. Porque a partir do momento em que ele já sabe o que queremos, poderá propor novos olhares para uma cena e não terá que se preocupar em resolver tudo naquele momento. Planejar é bom para liberar a criação. Creio que o cinema lida com um tempo real, não pode ser algo artificial. Temos que entrar no real dentro desses planos decupados. O presente daquele momento tem que estar pulsando.

 

6) Como foi trabalhar com o Jair Rodrigues?

A presença do Jair nos colocou um desafio, tínhamos que pensar como iríamos trabalhar a improvisação com ele. Acho que no fundo era o que todo nós estávamos querendo. Nós queríamos que viesse essa energia mágica que nos desconcertasse. A presença do Jair atendeu a um desejo coletivo. Precisávamos nos sentir instáveis, para poder responder e dar vida à coisa toda. E essa foi a grande graça do filme. A energia do Jair está lá. Ele foi um presente dos deuses para o Super Nada. O Zeca era um personagem para baixo que bagunçava a vida do Guto, o Jair continua fazendo essa bagunça, mas tem um brilho. Ele trouxe ao personagem uma beleza que talvez não estivesse prevista.

 

7) Como funciona o trabalho de vocês com o montador?

Esse foi um filme para o qual tínhamos um pouco mais de dinheiro do que em Corpo, e portanto pudemos filmar mais. Quanto mais material, mais complexa fica a montagem. Tínhamos uma riqueza de pontos de vista de cada cena. Havia uma série de possibilidades de filme. E por isso foi mais difícil. Primeiro tínhamos que resolver como seria aquela história e daí vem a decisão da plasticidade, o que vai dar unidade ao filme. Fizemos uma experiência que foi a de colocar o Guto para procurar emprego e fazer testes reais, mas como o material dramático era muito construído, rico, não tinha espaço para outra coisa. Logo no início da montagem percebemos que havia uma diferença grande entre os testes reais do Guto e os outros momentos da vida dele. Essa ideia não cabia no material dramático e terminamos por cortar quase todos estes momentos. Na montagem surgem as diferenças de estilo, há o montador que também propõe novas questões, mas acho que conseguimos chegar num resultado final que nos representa.

 

8) Como você tem percebido a recepção do público ao filme?

Tivemos um momento muito especial no Festival de Gramado, em que participamos de uma competitiva forte, com ótimos filmes, como o Som ao Redor [Kleber Mendonça Filho, 2012]. O que me surpreende é o envolvimento do público e nós sentimos muito forte essa vibração nos festivais pelos quais o filme tem passado.

 

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