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Entrevista – Clarissa Kiste (Lívia)

1) Como surgiu o convite para    fazer o Super Nada?

O Rubens foi a primeira pessoa que me contratou profissionalmente, e foi para fazer uma peça de teatro. Eu tinha 16 anos e estava me formando na Macunaíma, minha primeira escola de teatro. Fizemos juntos o Narraador [1996], uma das primeiras peça que o Rubens escreveu. Tenho até hoje guardado um xerox da folha de cheque desse meu primeiro salário. Filmando o Trabalhar Cansa [Juliana Rojas e Marco Dutra, 2011], o Marat comentou que o Rubens me procuraria para conversar sobre seu próximo projeto de filme. Em seguida ele me convidou para fazer o teste do Super Nada e eu acabei sendo confirmada para fazer o papel da Lívia. Nós temos um carinho muito grande um com o outro, nos conhecemos quando éramos muito jovens, e foi muito bonito a vida proporcionar nosso reencontro.

2) O que precisa te chamar atenção para você topar um trabalho?

Já tiveram momentos em que eu neguei alguns trabalhos, mas sendo bem sincera na nossa carreira não temos tanta escolha, pois ainda não há tanta oferta. Quando comecei minha carreira de atriz, o cinema engatinhava, faço teatro desde os 14 anos. Eu gosto muito do filme anterior do Rubens e da Rô, Corpo, e ao ler o roteiro do Super Nada, achei excelente, adorei a personagem. Gosto desse lado do filme que fala da batalha da carreira do ator, apesar da minha história pessoal não ter acontecido exatamente assim, todos nós conhecemos colegas como os personagens do Guto e da Lívia. Acho que o principal para que eu possa topar um projeto ou não, passa muito por com quem eu irei trabalhar. Quando você está com pessoas em que você confia e admira você topa e segue junto nessa trilha.

3) Você transita entre televisão, teatro e cinema. O que leva de experiência de um meio para o outro? E o que há em comum entre atuar no palco, na TV e num set?

Fiz um pouco de tudo, publicidade, dublagem, cinema, série de tv, teatro, e eu tudo é o mesmo métier. Eu lanço mão dos mesmos artifícios para trabalhar no cinema, na tv e no teatro. Como comecei trabalhando no teatro, e foi o que eu mais fiz, posso dizer que é onde eu me sinto mais segura. No teatro, o ator tem o domínio total do que está fazendo, estar foto_Marcos_Camargo-8135em cena no teatro é muito completo e requer muito do ator. No cinema já é diferente, temos que ser muito mais receptivos do que ativos. Eu brinco que no cinema, inserida no cenário, na textura, na cor, no figurino, você quase que não precisa fazer mais nada, só o que está escrito no papel. A imagem é muito forte no cinema. No teatro você tem que estar presente 360 graus, criar a forma, a velocidade, o clima… no cinema quem cria tudo isso é todo aparato que está em volta, no caso é o diretor que rege. Eu concordo com aquele máxima: a tv é uma arte do autor, o cinema é uma arte do diretor e o teatro é uma arte do ator. Em cada meio há quem comanda.

4) Como foi feita a preparação para você viver a personagem?

Nós ficamos 2 meses fazendo aulas de preparação corporal, e isso nos dá uma sensação de estar fazendo teatro, de estar no lugar independente da Lívia, independente da minha fala. A sua personagem começa a ganhar corpo, jeito, olhar. Esse contato focado com o personagem faz com que você esteja segura no momento das filmagens, esteja em casa no momento da ação. Essa preparação foi muito prazerosa e importante para estabelecermos uma mesma comunicação, uma mesma língua.

5) A personagem da Lívia é lacunar, que aparece e desaparece ao longo do filme, isso te colocou alguma dificuldade? Havia alguma dificuldade nessa fragmentação das suas cenas?

Foi mais difícil encontrar o arco da personagem. Na verdade, a Lívia está lá como um chão para o personagem do Guto. Através da relação dele com ela, dos comentários dela, das atitudes dela, nós estendemos melhor o Guto, as aspirações dele, seus fracassos, sua falta de iniciativa. Acho que a função da Lívia é clarificar a compreensão do aspecto pessoal do Guto. A cena da dança entre o Zeca e Lívia marca uma virada e daí em diante eu entendo o fato dela sumir, pois da metade do filme para frente o espectador já tem informações suficientes sobre o Guto.

6) Como foi contracenar com o Marat Descartes e o Jair Rodrigues?

Desde o início o Rubens sabia bem o que queria da minha personagem. Com o Jair tivemos que ter um jogo de cintura, o que é normal pelo fato dele não ter essa prática como ator. É uma figura única, foi uma delícia trabalhar com o Jair. Ele tem uma energia impressionante.

7) Como é trabalhar com dois diretores?

Eu dei sorte, o Rubens e a Rossana estão em uníssono o tempo todo. Ambos são muito abertos. O fato de sermos atores e do filme tratar da nossa realidade, fazia com que eles nos ouvissem muito, dávamos nossas opiniões do que era verossímil ou não. No set, o Rubens é mais expansivo e a Rossana mais observadora. Ao meu ver, quanto mais atenção e quanto mais opinião melhor, pois o momento da filmagem é o momento da troca. Tinha também uma ótima relação com o fotógrafo, o Alemão. Para o ator é muito importante a conexão com essa pessoa que está com olho na câmera. Quando entro no set estabeleço imediatamente uma relação de olhar com o fotógrafo.

8) Quais são seus próximos projetos?

Quero cada vez mais fazer cinema, mas não há tanta abertura e tantos projetos para nos absorver. Este ano fiz com a Monique Gardenberg, que também é diretora de cinema, um espetáculo baseado nos contos do Haruki Murakami, chamado O desaparecimento do elefante. Em breve ele irá estrear aqui no SESC Pinheiros.

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