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A crítica de teatro Beth Néspoli fala de SUPER NADA

Texto da crítica teatral Beth Néspoli a respeito de Super Nada:

“Saí de Super Nada afetada. É daqueles filmes que permanecem com a gente por um bom tempo. E o valor de uma obra de arte está nas reflexões que provoca, não é? Por outro lado, a amplitude do debate não depende unicamente do potencial da criação, mas das possibilidades de sua partilha no espaço público. Sabemos todos dos problemas do circuito exibidor. Se o filme circula pouco, também recebe menos críticas, questões que poderia suscitar não vêm à tona. Seu filme fala também disso. O reduzido número de salas de cinema onde o filme está sendo exibido é um dos motivos que me levam a querer jogar na roda mais um ponto de vista de espectadora, mais uma leitura entre tantas outras que seu filme pode propiciar.
Para mim, o primeiro grande acerto está na escolha do ator. Na saída do cinema, tomada pelo filme, pensei em Bergman, que podia se dar ao luxo de dar um close num rosto e dizer muito, tocar profundamente, por meio do silêncio expressivo de um intérprete. Marat Descartes é um ator dessa envergadura. Posso ter dúvidas quanto às leituras que faço do filme, mas não tenho dúvida de que a densidade alcançada deve muito ao trabalho de Marat.
Assim, logo nos primeiros minutos de filme, a atuação de Marat informa que estamos diante de um homem emocionalmente carregado, mobilizado por uma inquietação intensa, mas não explicitada, uma angústia na qual somos levados a acreditar, mas cujos motivos o filme não entrega facilmente – uma das qualidades do roteiro. E somo conduzidos a buscar a explicação nos fragmentos de sua vida compartilhados pela câmera, que ora o observa, ora observa com ele a paisagem da cidade, muralhas de concreto cinza que a um só tempo abrigam e isolam as pessoas; ruas desertas, sujas e escuras nas quais um homem pode agonizar invisível na sarjeta junto com o lixo. Em muitos momentos, a câmera conduz nosso olhar pelos remendos do sofá, pelas cortinas puídas, pela exiguidade do espaço no qual o ator vive. Imagens que parecem pedir a associação entre angústia e precariedade de recursos materiais. Afinal, o sistema capitalista, no qual estamos todos imersos, quer nos convencer de que a felicidade pode vir de um sofá novo. E, por mais que neguemos, conseguiram nos convencer de que nada de bom pode acontecer a alguém alijado do consumo ao ponto de ter de escorar o pé do sofá com livros. A maioria das famílias passa bem sem livros, mas um sofá quebrado vale o risco de prestações a perder de vista. “Os objetos se constituíram a substância do mundo” – é a inscrição que pode ser lida pelo espectador no percurso do espetáculo do Teatro da Vertigem, Bom Retiro, 958 metros, e que me veio à cabeça ao ser obrigada pela câmera a ver e ler a precariedade, a pensar sobre ela. Mas, ao longo filme, o sofá velho abriga bem o corpo cansado, pode abrigar um amigo que não consegue voltar para casa, o chuveiro substitui sem grandes problemas a torneira emperrada, na escovação dos dentes, assim como propicia o prazer do banho. E o apartamento reduzido serve como lugar de ensaio e criação, e também de troca afetiva. Não, a precariedade é um dado, mas é também uma falsa pista. O buraco é mais embaixo.
O protagonista é um brasileiro pobre, como muitos outros, com um projeto de vida: escolheu ser um artista, um palhaço. E o filme dá pistas de que ele leva a sério tal escolha. Investe tempo e dinheiro no aprimoramento de seu instrumento de trabalho, faz aulas de preparação corporal, dedica boa parte de sua energia vital a planejar um roteiro para um ‘número’ a ser realizado por uma dupla de clowns, ensaia com afinco e frequência na sala de seu apartamento. Acompanhamos sua luta contra limites internos e externos: o corpo que dói ao executar o que a mente desenhou, as ideias que burila o tempo todo, a forma ainda distante do desejado, o parceiro que falta ao ensaio. Não consigo ver nada que faça dele um sujeito “em busca de um lugar ao sol, leia-se TV”, como disse alguém. Participar de pegadinhas para a TV e testes para comerciais são trampos, modos de ganhar algum dinheiro para sobreviver. Não por acaso o filme faz questão de mostrar o vencedor do teste de comercial de desinfetante, cuja atuação é de um ridículo que tem tudo de submissão às regras da produção e nada do humor subversivo do palhaço. Na minha leitura, a reprovação do protagonista tem a ver com dignidade, e não com incapacidade. É possível ler diferente, mas talvez porque tal resistência não seja sublinhada pelo diretor, não ganhe tratamento heroico. A atitude do ator parece resultar menos de decisão e convicção e mais do sentimento difuso que paralisa. É uma resistente vacilante, mas afinal o dinheiro do trampo não se destinaria a comprar sofá, mas serviria para tomar menos dinheiro da mãe que já sustenta a filha que é dele.
Interpretado por Jair Rodrigues, o Super Nada do título parece surgir para rasgar mais fundo a superfície do traçado. Trata-se de um cômico, que protagoniza um programa de TV de quase nenhuma repercussão, em uma emissora sem audiência e sem relevância. Quando o ator comenta com a namorada, Clarissa Kiste também em ótima atuação, que recebera o convite para fazer uma participação no programa do Super Nada, ela pergunta: “Ainda existe?” Supunha que a indústria do entretenimento já tinha descartado o humorista como um sofá velho. Mas o convite o afeta. Super Nada é o ídolo de infância, muito provavelmente o responsável pelo primeiro encantamento pela arte do palhaço, o artista que definiu seu projeto de vida. É o que se deduz não tanto das palavras, mas da eloquência de um longo olhar de admiração, terno e quase infantil, lançado pelo protagonista ao Super Nada em uma cena silenciosa – e aí, mais uma vez, o talento expressivo de Marat faz a diferença. Esse laço afetivo, antigo e estreito, talvez explique o grau de explosão da violência mais adiante. A decadência do ídolo já era evidente quando o ator teve de carregá-lo, bêbado, para sua casa. Acomodá-lo no seu é um gesto carinhoso e de deferência ao passado, muito mais do que submissão rebaixada ao ídolo da TV. Porém, ao chegar ao apartamento carregando Super Nada quem o espera é a namorada que, como o velho ídolo, é já outra, mas ele não sabe. Como ela não diz o que a perturba, não expressa o motivo de seu ressentimento, tudo o que ele consegue perceber é que ambos – Super Nada e ela – se unem contra ele num exercício de tirania afetiva. Juntos, ela e o comediante encenam um teatrinho rebaixado, cujo único objetivo parece ser o de feri-lo. O revide é violento, porque ultrapassa a banalidade da cena e dos opositores, algo mais fundo foi atingido.
A ferida é funda, chega a desestabilizar a cumplicidade e a integridade mantidas na relação com a mãe (Denise Weinberg). Mãe que sem o saber será também o canal da cura, uma vez que ela lhe dá a notícia do gesto digno de Super Nada e assim abre caminho para a reconciliação do ator com o seu modelo de infância. E, por tabela, com sua arte. A risada de sua filha diante da TV o leva de volta ao ponto de origem. Na cena final vê-se um artista feliz com a cena tola que está prestes a gravar. Sabemos que uma criança vai rir com ela, o filme nos deu essa certeza pouco antes. É pouco? Certamente é maior sua ambição. Mas o que mede o valor de um artista? É a pergunta que o filme nos faz. O alcance da veiculação? O aplauso do público? A pergunta vale para o filme. Não é perfeito, mas é provocador. Vi numa tarde de sábado em uma sala de cinema quase vazia.
O filme retrata um impasse e deixa perguntas ressoando no espectador. O que aquele ator deveria fazer para tornar potente sua arte? Talvez não por acaso, o convívio com os pares em encontros um tanto autofágicos seja a parte menos potencializada do filme. Como romper os limites do gueto e atravessar o latifúndio da indústria cultural? E com o quê atravessar, com qual criação? São perguntas que se articulam em uma trama na qual estão enredados o filme e os espectadores, todos nós.”

(Beth Néspoli)

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